O trato com o Papai


A casa estava um tremendo alvoroço, vieram primos, tios e tias de todos os lugares. Mamãe trocou todas as cortinas, as toalhas e já fazia três dias que não parava de trabalhar. Com a ajuda de Dona Maria José confeccionou roupas novas para mim e meus quatro irmãos. Eu era um menino de sete anos que só queria saber de brincar, brincar de tudo e com qualquer coisa, o dia inteiro!

Pela manhã, a mamãe nos chamou e disse:

– Escutem crianças, vão se banhar e colocar a roupa nova, quero cabelos cheirosos, sapatos lustrados, unhas cortadas e dentes ariados!

Ouvi atentamente e saí correndo.

– Ei João para onde você vai? – A mamãe me perguntou aos berros.

– Vou brincar mamãe!

– Mas que menino abusado, não escutou o que eu disse? Agora não é hora de brincar!

– Por que mamãe?

– Por que seu pai está voltando da longa viagem e todos os filhos devem aguardá-lo com todo esmero!

Mais tarde eu soube que a longa viagem foi na verdade uma guerra, na qual Papai lutou bravamente e ganhou várias condecorações. Mas naquele dia a única guerra que me interessava estava no galinheiro, eu era o enorme lobo feroz que colocava até o galo mais bravo para correr.

Bastou que mamãe virasse as costas e lá fui eu, brinquei, brinquei até me dar fome. Voltei sorrateiro e vesti a roupa nova, desci até a cozinha onde Dona Maria José me deu um saboroso suco de manga. Porém, para meu azar minhas irmãs gêmeas apareceram por lá e como sempre começaram a gritar:

– Mamãe, mamãe, ele chegou!

A mamãe entrou na cozinha com fogo nos olhos.

– Ei poderoso dragão não me queime, eu te imploro! – Falei divertido.

– Do que você me chamou menino?

Vi que mamãe não estava para brincadeiras e quando veio em minha direção e eu corri. Corri muito sem olhar para trás. Meus irmãos mocinhos vieram ao meu encalce. E aí começou minha aventura!

Me escondi nos estábulos, os cavalos relincharam e quase tomei um coice! Fui para as palhas, mas alguém fez caquinha por ali e vi que não era um bom lugar para ficar. Saí destrambelhado até o cercado e tropecei nos baldes de leite, as vacas mugiram impaciente. Dei no pé daquele lugar! Voltei para o galinheiro, mas as galinhas fizeram aquele escândalo, afinal eu era o lobo perigoso que elas conheciam. Me restaram os porcos…

Decidido a não ser capturado pelos soldados daquele raivoso dragão (mamãe), me joguei na lama. O cheiro não era bom, mas era isso ou morrer queimado. Ninguém foi me procurar por lá, os porcos se mostraram mais receptivos e fui ficando.

De vez em quando escutava alguém gritando meu nome. De longe eu via os visitantes chegando e de repente ouvi uma grande salva de palmas. Papai chegou, era ele! Continuei quietinho por algum tempo e me perguntando que aventura era essa que eu não podia sair do lugar?

Uma lágrima intrometida molhou meu rosto enlameado. Percebi que já era hora de honrar minhas calças, como diziam, e voltar para a casa. Mas aí me dei conta de que não podia me apresentar ao Papai daquele jeito. Pois bem, uma aventura só é boa quando tem um grande final, e eu iria atrás do meu!

Corri até o lago e parei de chofre! Eu não sabia nadar. E agora? Teria que ir enlameado mesmo. Com sorte, encontraria Dona Maria José na cozinha. Mas ela não estava lá, então rodeei a casa até chegar no salão.

Pela janela eu vi um velhinho jeitoso sentando em uma das poltronas. Estou salvo! Pensei alegre… O velhinho jeitoso era meu avô, o consertador de tudo! Mamãe sempre dizia que se o vovô não consertasse algo, ninguém mais consertaria! E o vovô ia consertar aquela situação para mim.

Eu não sabia orar direito, mas fiquei ali orando para que ele me visse na janela. Demorou uns minutinhos e eu pude ver o Papai com a mamãe, ela estava linda! Mais ao lado estavam as gêmeas e os mocinhos, todos estavam limpos e perfumados. Só faltava eu! Mas eu estava sujo e fedorento, o que fazer? Orei de novo, com os olhos bem apertadinhos e quando dei por mim o vovô me espreitava sorridente. Daí ele fez algo que eu não esperava…

– Vejam quem chegou, o nosso pequeno aventureiro! – O vovô piscou e deu uma grande gargalhada, chamando a atenção de todos para mim! Poxa, que belo conserto hein vovô!

Entrei no salão cambaleando de medo. Mamãe correu ao meu encontro, pegou seu lenço e limpou minha face. Com os olhos marejados me perguntou:

– Mas em que aventura você se meteu hoje?

Eu já ia contar tudinho, mas ela colocou o dedo em minha boca:

– Xiu xiu xiu, conte para o Papai!

Virou meu corpo para que eu ficasse frente a frente com o ele.

– Mamãe, me desculpa – falei quase sem voz.

Ela não respondeu, sorriu novamente e com um tapa no meu bumbum me encorajou a seguir. Vamos lá, eu pensei, são apenas cinco passos…

No primeiro passo, procurei pelo vovô consertador… ele me endereçou outra piscadela. “Hum, depois eu me acerto com o senhor”, eu lhe disse pelo canto da boca.

Tomei coragem e dei o segundo passo, as gêmeas torceram o nariz. Bom, elas sempre torciam mesmo, então dei o terceiro passo… Ouvi os irmãos mocinhos rindo, eles diziam:

– Devia ao menos ter se banhado no lago.

Continuei… no quarto passo olhei novamente para a mamãe. Ela disse baixinho:

– Só mais um!

Reuni meu restinho de coragem e segui até o Papai. Ele me estendeu os braços e finalmente dei o quinto passo.

Cheguei na frente do Papai como estava, todo rasgado e enlameado. Tinha tanta vergonha que não me atrevi a encará-lo. Mas o Papai, aquele homem grande e bonitão, colocou sua mão em meu queixo e levantou meu rosto. Alargou um enorme sorriso, abaixou-se e me colocou no colo, me apertou contra seu peito e sua roupa ficou suja como a minha. Então ele me disse:

– Você precisou de muita coragem para vir aqui assim não é mesmo?

Apenas afirmei com a cabeça e ele continuou:

– Vamos fazer um trato meu pequeno aventureiro?

– Sim Papai – respondi curioso.

– Não importa o quanto a lama te cubra, acredite que eu sempre estarei te esperando. Basta que você tenha coragem de vir até a mim. Sabe por quê? – Ele não esperou a resposta:

– Porque sou o seu pai e eu te amo!

Nos entrelaçamos e o Papai convidou a todos para nos acompanhar em um grande mergulho no lago.

Naquele dia ele me ensinou a nadar, mas o que eu mais gostei foi ser recebido com o mesmo carinho e alegria que ele recebeu meus irmãos limpinhos. O papai não ligou para minha roupa, ele ficou feliz por que eu estava ali. Sobre o vovô, ele era consertador mesmo, não era?

FIM.

 

Não importa como estamos, nosso Pai maior sempre nos receberá de braços abertos se à Ele recorrermos.

Autora: Débora Araújo

 

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Comentários

  1. Artur Verçoza 19 de agosto de 2017 at 21:14

    Lindo texto, linda mensagem

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