A ilha dos crisântemos vermelhos

A Ilha dos Crisântemos Vermelhos

Há milênios de anos, em uma pequena ilha vivia uma menina com seu pai, um homem jovem e viúvo. Eles moravam em um casarão rodeado de flores deslumbrantes. O pai era muito caprichoso e cuidava pessoalmente de todas as flores, mas dizem que era igualmente ranzinza. Por isso, só era possível vê-lo sorrir quando estava com a filha cuidando de seu imenso jardim. Todos os dias colocava a pequena perto de si e perguntava:

– Filha querida, o que você vê aqui?

– Vejo lindas flores papai! Azuis, amarelas, brancas, rosas e vermelhas! – Respondia a menina.

Deste jeito, o pai passava horas com a filha ensinando-lhe sobre cada flor, seus nomes, significados e tonalidades.

Um dia, porém, o pai repetiu a pergunta e para seu espanto a resposta foi diferente:

 – Filha querida, o que você vê aqui?

 – Vejo flores cinzas papai.

E assim aconteceu sucessivamente. O pai entrou em desespero. Dono de vasta riqueza, mandou chamar curandeiros de todos os lugares, mas nada e nem ninguém pôde ajudar.

Todos os dias ele repetia a pergunta para a menina enquanto cuidava do jardim, e a resposta era sempre a mesma:

– Vejo flores cinzas papai.

Até que, tomado de tristeza, o jovem viúvo deixou de perguntar e a menina parou de enxergar completamente.

Certo tempo depois, ele soube que por ali passava um velho sábio chinês. Então, foi até o homem para pedir algum ensinamento ou coisa qualquer que pudesse ajuda-lo a resgatar a visão de sua filha.

O velho chinês disse-lhe que não era sábio, que era apenas um viajante que aprendeu a aceitar com humildade os pequenos presentes da vida. Disse também que em suas andanças a única sabedoria que adquiriu foi a de que os males do mundo são dissolvidos com a simplicidade do coração. Dito isso, remexeu seu bolso e ofereceu-lhe algumas sementes das flores de sua terra.

O pai da menina ficou contrariado com a resposta e recusou as sementes que o velho chinês ofereceu. Afinal de contas – ele pensava – em meu jardim já tenho as flores mais lindas de toda a ilha. Mas o que adianta se minha filha não pode vê-las?

O velho chinês já estava se despedindo quando foi abordado por uma aldeã muito simples que também foi lhe pedir um pouco de sabedoria.

O jovem viúvo ouviu a conversa entre a moça aldeã e o velho chinês. Ele ficou muito revoltado, pois a resposta que o velho chinês deu para a moça aldeã foi a mesma que deu para ele e também lhe ofereceu sementes de flores!

– Ora, mas só sabe falar isso e oferecer sementes? És um charlatão! – Vociferou o jovem viúvo ao velho chinês. O velho com muita brandura respondeu:

– É tudo o que possuo meu rapaz. Não tenho nada para dizer além do que aprendi e nada para oferecer além de algumas sementes das flores da minha terra.

A moça, sorridente, aceitou as sementes e muito agradecida disse que as plantaria imediatamente. Os três se despediram e cada um tomou seu rumo.

Os dias se passaram e nada da menina voltar a enxergar. Em uma manhã, enquanto cuidava do jardim, o jovem viúvo lamentava por seus infortúnios, julgava-se desamparado e injustiçado. Distraiu-se com suas lamúrias e acabou se acidentando com o facão do jardim. O infeliz acidente lhe causou a perda de uma das mãos.

A notícia se espalhou rapidamente em toda a ilha e logo bateram em sua porta pessoas oferecendo serviços de todos os tipos. Entre estas pessoas estava a moça aldeã que ele conheceu quando foi falar com o velho chinês. A moça se ofereceu para cuidar do jardim e o rapaz aceitou.

Curioso, ele perguntou o que a moça achou do chinês e ela respondeu:

– Achei-o verdadeiramente sábio! Ele me ajudou muito!

– Estás maluca? – Disse o jovem viúvo muito surpreso.

A moça aldeã, respondeu em tom tranquilo:

– Talvez o problema aqui não seja sua filha que não pode ver, mas sim o senhor que não sabe ouvir.

O rapaz já ia esbravejar, mas ao ver a expressão gentil e serena daquela moça simples, prosseguiu o diálogo da forma mais suave que conseguiu:

– Por favor, pode me explicar como ele te ajudou se te deu apenas sementes de flores?

– Para que florescessem eu tive que aprender a cuidar delas e foi assim que me tornei jardineira. Desta forma, posso trabalhar e ajudar com o sustento da minha família. Te asseguro que são flores encantadoras, diferentes de todas por aqui. Algumas têm cor amarela e radiante assim como o sol, e me trazem força e alegria de viver. Já as brancas, me transmitem paz e segurança.

– Pois, traga algumas para cá! Quero ver estas flores em meu jardim.

A moça sorriu e logo voltou com as flores. Plantou-as em frente à janela da menina, de onde puderam se conhecer. A gentil aldeã explicou para a menina o que sabia sobre aquela espécie:

– São crisântemos, alguns amarelos e outros brancos. Foram trazidos de muito longe por um sábio chinês. De acordo com as histórias do velho homem, o crisântemo amarelo é a flor do ouro, já o branco, representa a simplicidade e a perfeição.

A menina, sem poder ver, perguntou:

– E o vermelho?

– Não temos crisântemos vermelhos aqui – Disse um tanto contrariada.

Continuaram a conversa por algum tempo. A moça aldeã, de coração muito sensível, se afeiçoou a menina e todos os dias se desdobrava em cuidados para deixa-la mais feliz.

Com a convivência, o jovem viúvo e a moça aldeã, se tornaram amigos e o rapaz que era muito ranzinza passou a ser mais simpático e sorridente. Da grande amizade nasceu um amor puro e verdadeiro e assim decidiram se casar. A menina era toda alegria e fazia questão de ela própria levar o buquê com as flores e as alianças do casal.

No dia do casamento, um acontecimento chocou a todos os moradores da ilha. Poucas horas antes da cerimônia, a menina gritava do quarto chamando pelo pai e pela futura madrasta. Os dois, muito apreensivos, correram para atendê-la e a menina que estava visivelmente ansiosa disse ao pai:

– Papai, pergunte-me o que vejo hoje!

O pai, sem entender, trocou um olhar de assombro com a noiva que o encorajou a prosseguir. Com o coração aos saltos ele perguntou:

– Diga-me filha querida, o que você vê hoje?

– Vejo vermelho papai, vejo lindos crisântemos vermelhos.

A menina segurou a mão do pai e o conduziu até a janela, de lá ele pode ver também. No canteiro onde antes só havia crisântemos brancos e amarelos, floresceram com abundância grandes e majestosos crisântemos vermelhos!

O pai completamente emocionado pediu à menina:

– Repita para que eu tenha certeza de que não estou sonhando, que vês filha querida?

– Eu vejo esperança e também vejo paz. Mas acima de tudo, eu vejo amor papai! Vejo muito amor!

 Foi assim que aquele jovem pai finalmente entendeu a lição do sábio chinês e juntamente com sua filha e esposa, viveram muito felizes, rodeados de crisântemos amarelos, brancos e principalmente vermelhos.

As pessoas da ilha ficaram maravilhadas com o ocorrido e passaram a cultivar crisântemos em seus jardins. Tinham a esperança de ver florescer o crisântemo vermelho e com ele encontrar a cura para seus males tal qual a menina cega e o pai ranzinza.

No início, somente em algumas casas a flor brotava vermelha e majestosa, mas quem descobriu o segredo para seu florescimento tratou de ensinar aos outros. Então, de família em família o segredo foi repassado e aos poucos a ilha inteira foi tomada de crisântemos vermelhos.

O tal segredo nunca foi revelado para além da ilha, embora há quem jure que basta saber ouvir o que o velho chinês falou ao jovem ranzinza e a gentil aldeã. O que se sabe é que todos os moradores daquele lugar viveram em perfeita sintonia até seus últimos dias.

A história toda se tornou uma lenda e de boca em boca as palavras do velho chinês foram mudando, da última vez que foram repetidas diziam mais ou menos assim:

– Não sou sábio, sou apenas um viajante que aprendeu que a vida nos dá o que é necessário. Em minhas andanças aprendi que amor tem poderes curativos, mas só floresce quando enxergamos com a simplicidade do coração.

A verdade que se diz é que para encontrarmos a ilha dos crisântemos vermelhos, basta fecharmos os olhos e pensarmos em alguém a quem temos amor puro. Verdadeiros milagres acontecerão em nossas vidas se formos capazes de enxergá-la.

FIM.

Autora: Débora Araújo

Saiba mais…

Em uma viagem muito feliz me deparei com uma flor vermelha, linda e cheia de mistérios. Fiquei tão encantada com a flor, que assim que pude tentei retransmitir minhas impressões em uma história infantil que só pode repetida por quem conseguir enxergar a Ilha dos Crisântemos Vermelhos. Vamos tentar?

 

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